O Retrato do Artista Quando Atleta

Meus heróis não morreram de overdose: preferiram curar a ressaca se inscrevendo em uma aula de pilates. Em algum momento no mundo cultural, deixou de ser meta morrer jovem. Tirando uns charliesheenismos da vida — mais motivo de piada do do que inspiração — a autodestruição como expressão de autenticidade morreu junto com o Kurt Cobain.

E certa hora, depois da data limite do suicídio, o vazio surge. O sexo e as drogas não ajudaram muito em preencher essa lacuna existencial. A terapia só fez sofisticar essas neuroses.

Até que o artista assiste na TV o que parece ser aquela mesma matéria requentada: a criança carente que recebeu oportunidade através do esporte. “Se tivessem colocado ela pra ouviu Joy Division, era matéria de suicídio na laje”, refletiu. E então percebeu que era disso que ele precisava: uma boa dose da euforia esportiva.

O esporte sempre foi visto com desconfiança por quem foi criado em berço de bambu reflorestado. Esporte é coisa de gente tacanha. O Santo Graal do esporte é o troféu de campeão: a vitória é um objetivo obtuso por natureza. O artista não reconhece a vitória, nem a derrota; sua vida é habitar um interim em que a felicidade é tão abstrata quanto aquele “projetinho mais autoral” que ele lançou e ninguém prestou atenção.

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Só que o artista também não acabaria com a própria reputação sendo pego praticando algum esporte que apareça em propaganda da Nike, óbvio. Então procurou se envolver em atividades físicas lúdicas, ressignificando a relação com o próprio corpo em contato com a natureza. E trocou o açúcar branco pelo mascavo, afinal, todo mundo sabe que adoçante é coisa de cafézinho de empresário depois que almoça em churrascaria.

Depois do malabares, da Ragatanga Yoga e dos lekline, aposto na Amarelinha (sendo chamada de Hopscotch) como esporte descolado de 2014 da capa da Revista do Globo.

Depois do malabares, da Ragatanga Yoga e dos lekline, aposto na Amarelinha (sendo chamada de Hopscotch) como esporte descolado de 2014 da capa da Revista do Globo.

A cultura do esporte infiltrou a burguesia cultural pelas beiradas, transformando o que era totalmente desconhecido em última moda nos vernissages, mais ou menos como a caipirinha de lichia. Só não se enganem, vem com todas as adaptações exigidas : camisa de time de futebol que seja mais velha que a Miley Cyrus, nem pensar. Só retrô. E nem os ídolos óbvios. Onde o senso comum escolhe o Ayrton Senna, o artista escolhe Nelson Piquet. Já torcer pro Flamengo é quase um justiçamento histórico, um contragolpe semiótico para os que pensam que ele vai torcer para o Criciúma: tentar ser autêntico gostando do que você acha que é pouco valorizado é forçar a barra. Uma das grandes soluções pro vazio que o artista relatou nas suas sessões de terapia é ter o que conversar com o taxista.

E agora, que o artista se aproximou do esporte, toda a massa intelectual se emociona quando acontece o contrário. O zagueiro do Flamengo lê uma coleção de livros por ano. Está acontecendo, amigos. Esse ano subimos em cima do Congresso. Quem sabe não veremos algum jogador comemorando em homenagem ao videozinho engraçado que eles viram na internet, aquele sobre o futebol filosófico? O espectro do Dr. Sócrates agradece.

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