Seriam os Deuses Hippies Vendedores de Miçangas?

Andando por Santa Teresa você enxerga o ideal que a cidade do Rio de Janeiro quer passar pros turistas: um lugar que equilibra o pézinho encardido de quem curte um despojamento folclórico mas que tem medo de pegar botulismo em queijo coalho vendido no espeto. Encontrar esse equilíbrio sempre foi a obsessão de quem trabalha com turismo em um país do Terceiro Mundo.

Quando o turista, especialmente o europeu, sai à noite pra conhecer os costumes da gente do Terceiro Mundo, ele vem exatamente com essa imagem em mente: somos todos mais ou menos personagens daqueles filmes da Disney sobre culturas não-européias. O estranhamento e o deslumbre são dois sentimentos procurados por quem viaja, especialmente sendo mochileiro de albergue. Se não bastasse só isso, a xenofobia nunca pegou muito no Brasil, então só resta um sentimento eufórico pela visita dos navegadores. Todo mundo curte a chegada do estranho exótico na cidade,  ávidos pra trocar as maçãs pelos espelhos.

Eu trabalhei durante quase dois anos em um hostel (albergue de gringo) e vivenciei uma relação de encantamento mútuo que me deixava totalmente constrangido. Todo mundo tem certa curiosidade por uma cultura totalmente distante, mas o que eu via durante os meus dias de trabalho era a série Caramuru revisitada em tempos atuais. Os homens de fora ficam afetados por mulheres que aqui são ignoradas. As mulheres daqui dão em cima de caras que viveram na pele o bullying muito antes de qualquer pedagoga no Brasil conhecer esse termo.

Essa espécia de mulher, a maria-hostel, e a típica menina que demora pra tirar a calcinha pra brasileiro mas abdica de todo o pudor pela fantasia de ser levada por um gringo de dente amarelo pra um mundo onde existem escadas de incêndio e pessoas perambulando com um copo de Starbucks na mão. Em qualquer samba ou forró você vê ela mosquitando em volta de pessoas que sejam laranjas e estejam de braços cruzados, ignorando todos os outros de pele escura que dançam de verdade. Quanto mais o gringo é cabaço, mas elas se encantam, porque é exatamente o que elas procuram: o cara que sempre foi desprezado no seu país que só vê o sol um mês por ano e que depois de crescido vem pra um país pobre tentar arranjar um sexo com uma nativa. E ficam os dois assim, cada um vivendo ao seus estilo essa fantasia de Pocahontas.

Daí vocês, que moram no interior e nunca viram alguém falando outra língua, pensam: então os homens nativos voltam para as suas casas e abrem cinco abas do X-Videos? Felizmente a natureza humana é graciosa com suas compensações, e se existe o gringo otário que paga caipividoka de frutas vermelhas pra brasileira, também existe a redenção pra todos os homens que, assim como eu, não sabem chegar em mulher: A FINNISH-NYMPHO.

Parece mentira, mas quem trabalhou em albergue sabe o que eu tô falando: nórdica é do tipo que se você tocar no ombro e ela não chamar o segurança e nem fizer cara de nojo, é 50% de chance de você catar sarda no corpo dela mais tarde. Deve ter alguma coisa maravilhosa nessa criação laica que faz com que elas realmente não façam questão de te add no Facebook no dia seguinte.

O problema pra quem está me lendo agora é que tanto você que procura a Finlandesa-Ninfo ou o Gringo Otário é que essa galera não costuma gostar de gente que lê blogs. Nem que usa internet. Você precisa corresponder aquele imaginário tropical, estar em sintonia com a TERRA e as COISAS SIMPLES DA VIDA. É o fetiche do nativo, como se existisse em todo gringo viajante uma dosagem de antropólogo francês. Vou listar aqui algumas dicas pra você que quer ver uma genitália rosa e quem sabe descolar uma temporada fora do Brasil:

  • Tire os óculos. Nós, nativos, não lemos livros… afinal, não precisamos da sabedoria dos eunucos europeus. A gente entende as coisas pelo tato, pelo toque, pelas histórias contadas pelos nossos ancestrais.
  • Se você souber falar inglês fluente, minta. Fale o bastante pra ser entendido mas não transpareça nenhuma fluência, especialmente no sotaque. Sabe o Joel Santana? Por aí.
  • Evite histórias de escritório, especialmente se seu trabalho envolve coisas que te façam cumprir horários de gente branca. Acordar cedo, por exemplo. Se não tiver criatividade pra fingir que é um domador de cavalos, fale que é advogado que trabalha pra uma ONG, sacou? Tente não fazer ela te imaginar de terno: isso não é coisa de latino.
  • Tenha melanina.
  • Resumindo: se comporte como se fosse um hippie vendendor de miçangas na praia.

 

O hippie vendedor de miçanga é o latino ideal pro mochileiro europeu: tem malícia o bastante pra sobreviver, mas não é ambicioso como os tecnocratas do capital especulativo. Vende pra você umas lembrancinhas que foram feitas por eles mesmos ou por índios locais  — que compraram imitação de pena no Centro — e mantém uma personalidade meio rastejante, que ao mesmo tempo faz o turista se sentir instigado pelo desprendimento, mas não de maneira complacente. Evoca o exotismo daqueles filmes da década de 30 sobre as tumbas do Egito, os animais exóticos da Amazônia, ao mesmo tempo que entende todas as regras da vida urbana. Os gringos estão cansados de viver em um mundo frívolo, de responsabilidades abstratas, de meu iTunes-bloqueou-a-minha-conta. É só você chegar com seu jeitinho brejeiro, enrolando o seu dread (pode ser cabelo normal também) que vocês vão entender o que eu estou dizendo.

Então, da próxima vez que vocês forem chegar em uma mulher loira de dois metros bebendo caipivodka e dançando samba como se fosse o Príncipe Charles com a passista da Beija-Flor, lembrem-se desse mantra:

 

“VIM-

DE CARONA-

DA BAHIA-

EU-

TRAMPO-

COM-

ARTESANATO”

 

****

Correção póstuma: misanga com “Ç” não me soa direito, mas como eu trabalho com edição de texto achei que deveria corrigir. Continua dando nervosinho e vontade de coçar (com cedilha) a tela quando eu vejo isso.

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2 comments

  1. Lucas

    É uma sagacidade de entender e manipular estereótipos que me assusta. E não falo só deste texto, falo de várias coisas que você tem dito no blog e no Twitter ao longo de anos.

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