Nem em pé e nem deitado: uma curta história sobre a cadeira como objeto de arte


O homem nunca cansou de surpreender o homem. Depois de virar bípede, ele chegou a conclusão que precisava de um lugar pra descansar, contar histórias, fumar cachimbo, terminar cruzadinhas e ter ereções furtivas com a sobrinha no colo que, apesar da inocência, já estava chegando na puberdade. O lugar pra ficar sentado, ou seja, nem em pé e nem deitado, é o grande mistério da humanidade. A roda todo mundo sabe que foi inventada por algum brasileiro que não resolveu patentear a idéia, mas o acento foi inventado por algum sujeito, provavelmente europeu, que estava preocupado com o “bem-estar” (WELFARE).

Uma simples cadeira, uma cadeira em si, o conceito mais puro de cadeira. O mundo do design deve chamar isso de "cadeira-em-cadeira"
Uma simples cadeira, uma cadeira em si, o conceito mais puro de cadeira. O mundo do design deve chamar isso de “cadeira-em-cadeira”   

A cadeira como instrumento de poder surgiu logo após um druida ter notado que era possível realizar sermões sentado (a palavra não existia na língua local — o movimento era explícito) e através dela passar a idéia de que se estava um pouco de pé, um pouco deitado. Era o bastante pra gerar a dúvida de que você estava semi-consciente, e não dormindo ou morto.

Compreendendo essa dinâmica, o druida local encomendou quinze pedaços de madeira talhada, com o apoio para as costas (a bossa-nova ainda não havia vingado) para um artesão local. Surge assim o primeiro designer de cadeira e suas variantes (tronos, poltronas, sofás etc.) que estabeleceu, através do tempo, questões até hoje pertinentes ao mundo de pessoas que ocasionalmente se sentam em algum lugar:

O mundo está preparado para permanecer sentado?

Como eu posso estimular que as pessoas se sentem em uma cadeira, e não no chão?

Quantas pernas são necessárias pra se trocar uma lâmpada (“r: seis” risos) ?

Durante o período medieval qualquer tipo de contestação era censurada: livros sobre o caráter filosófico da cadeira  (“Deus no Juízo Final permaneceria sentado ou em pé?”) foram queimados em praça pública. Os reis permaneciam sentados em seus tronos porque isso era natural, como se fosse loucura contestar o movimento da perna esquerda com a direita quando ocasionalmente alguém tivesse que caminhar (andar era cafona e galope a cavalo era coisa de playboy).

O Século das Luzes trouxe de volta todas essas questões esquecidas durante séculos. Inspirados na cultura greco-romana, designers do mundo todo retomaram a discussão que existia em torno da coluna ereta sobre os joelhos flexionados: até quando o mundo iria negligenciar a beleza contida em um movimento tão demasiadamente humano?

Debates acerca da funcionalidade existencial da cadeira foram realizados em diversas cidades européias, em especial Gênova, considerada o Brooklyn do século XIV. Um dos designers se destacou por sua genialidade e um look pretensiosamente despojado. Seu nome era Leonardo Da Vinci.

DaVinci em uma passagem relâmpago por um vernissage em Constantinopla

DaVinci em uma passagem relâmpago por uma vernissage em Constantinopla

Leonardo da Vinci ficou conhecido como pintor, escultor, engenheiro, DJ, fotógrafo, designer e colaborador da revista “Vice”. Trouxe com ele não apenas um novo olhar sobre os “pedaços de carbono grotescos da natureza” (assim era por ele chamadas as árvores e pedras) mas também elevou a cadeira a objeto de culto. Não bastava apenas ser artista: você devia saber confundir o cidadão comum sobre o que era ou não um objeto de arte. E nada melhor do que a cadeira pra isso, afinal, ninguém dava mais a mínima pra um objeto absolutamente indispensável. Nasce ai o conceito de cadeira como objeto de arte, tema central dessa minha digressão histórica.

A cadeira no mundo moderno e o legado genôves

Com um tempo a cadeira foi consolidada de maneira definitiva na memória afetiva do ocidente. As pessoas estavam dispostar a pagar quantias absurdas por um suporte de quatro ou três pernas. Todos os acentos tiveram o seu glamour: o trono perdeu a sua importância e  o sofá continua como um clássico aparelho de arregimentação social. Mas a cadeira, a matriz de todos os apoios do corpo, é o termômetro mais preciso sobre as mudanças na visão do homem sobre a sua condição.

Em alguns lugares você compra um ser humano com o dinheiro gasto na compra dessa cadeira

Em alguns lugares você consegue um ser humano com o dinheiro gasto na compra dessa cadeira

Hoje em dia é notável o status que a cadeira exerce no mundo contemporâneo: quem é milhonário gasta mais em uma cadeira do que em meses de salário de uma parte dos seus empregados que, vez ou outra, tem o direito de se sentar. Pelo menos eles sabem o prazer que é ficar nem em pé e nem sentado. Mesmo na maioria das vezes a cadeira não sendo “ergonômica-de-aço-inoxidável-designer-renomado-de-Tokyo”.

Será que Da Vinci iria imaginar que chegaríamos a isso? O que eu posso imaginar é a frustração dele em ter vendido a Mona Lisa como peça única ao invés de fazer uma dúzia de versões exclusivas, com dedicatória ao comprador e expostas em galerias e no seu Flickr pessoal. Ou o Michelangelo vendendo não uma escultura de David por dois milhões, mas dezenas por quinze mil. Uma delas iria pra casa do Jô Soares, com certeza.

5 Respostas para “Nem em pé e nem deitado: uma curta história sobre a cadeira como objeto de arte”

  1. ana coimbra Diz:

    vc é mongol…. mas perspicaz

  2. fran Diz:

    IDOLO VC.

  3. Bruna Diz:

    “Não bastava apenas ser artista: você devia saber confundir o cidadão comum sobre o que era ou não um objeto de arte.” Segundo um trouxa ex, tudo o que tá atrás de uma faixa no museu é arte. ou seja

  4. Rogério Diz:

    Muito bom, como sempre.

    (“Como eu posso estimular que as pessoas se sentem em uma cadeira, e não no chão?” R.: mantenha todo e qualquer violão a uma distância mínima de 5 km)

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