Cotidiano é uma governanta gorda que te ensina desde a usar talher até falar de maneira apropriada, já diria eu. Existe alguma coisa no polimento diário que te faz virar uma pessoa fina ou um porco bêbado.
Estou me mudando da Tijuca (aka “centro do universo”) pro bairro do Flamengo, aqui no Rio. Em uma rua que era passagem da nobreza de cavalaria até o Palácio aonde os nobres portugueses viviam, uma espécie de calçada romana em uma versão menos bem acabada.
Arrumando as caixas e indo pra lá, conheci os meus poucos vizinhos. Um apartamento por andar.
Visitando os apartamentos vi como a aristocracia entrou em um processo de pussyficação (expressão herdada do amigo Ronald Rios) pra entrar na era do clean, do bairro de subúrbio americano, da total assepsia.
Os art books sobre arquitetura e fotografia de barco espalhados nas prateleiras rentes ao chão são a nova cristaleira:
Fiz uma social no terraço e fui ignorado pela comunidade predial, mas naquele desprezo estilo Romário quando se mudou pro Leblon.
Você visita a casa de um vizinho VIOLINISTA CLÁSSICO e espera o que? Lógico:
O “JOIE DE VIVRE” CARIOCA
Um dos grandes males da institucionalização do despojamento carioca é a esquizofrenia que existe na hora de nominar o seu estabelecimento. Boteco que é boteco, raramente tem essa definição no nome. Boteco é “bar e lanchonete”, se o caso for amenizar na hora do extrato do banco se a sua mulher lhe perguntar aonde foi que você gastou tanto dinheiro. “Café bar” é coisa de homem, de quem bebe em pé. Existe também o singela fantasia de chamar seu boteco de “lanchonete”, como uma universitária de família que a noite se torna puta de luxo.
O que não pode existir são lugares como o nefasto “Botequim Espelunca Chic”, que é a bastilha dessa geração GNT, dos que conhecem todos os garçons pelo (mesmo) nome, dizem que são torcedores do Flamengo desde pequenininho mas no fundo usam a camisa como uma reparação histórica, a geração que compra pão de sete grãos no Mundo Verde mas reclama que o velho comércio anda morrendo.
E é com esse tipo de vizinho que eu vou ter que conviver. Certamente existem focos de resistência aqui e acolá, mas enquanto não encontro vou seguindo de pick-up velha pro olho do furacão.



29/11/2010 ás 5:06 pm |
“naquele desprezo estilo Romário quando se mudou pro Leblon”
Mitsu, epítome da nova literatura brasileira, sou muito fã.
29/11/2010 ás 6:33 pm |
Vais sofrer um bocado no novo bairro. Só na rua do Matoso, do glorioso Galeto Rex, há mais do que o dobro de butecos de responsa em toda a ZS.
30/11/2010 ás 11:07 pm |
geração gnt: todos são fêmeas emancipadas bem resolvidas que trabalham, têm filhos, cuidam da saúde, fazem yoga e ainda decoram a casa com estilo clean (acho q clean já é cafona, o pessoal da barra já é clean tb, até outro dia esse era o topo dos estilos pra mim, agora é a brasilidade e a mistura de estampas “cults” que aparece do decora brasil)…
01/12/2010 ás 12:17 am |
Não entendi a queixa com a nova vizinhança. Na Tijuca eram todos manos da periferia? Não sei se tem muita diferença da galera que mora em um bairro ou no outro não.
02/12/2010 ás 5:21 am |
“Boteco que é boteco, raramente tem essa definição no nome”, a coisa mais verdadeira que li em tempos.
09/12/2010 ás 5:31 pm |
Se Manoel Carlos tentasse descrever um pé-sujo, teríamos o Belmonte. Não sei ao certo, posso estar errado, isso ae é meio com vocês, mas acredito que isso pode não ser uma necessária coincidência aqui nas teorias Lagoacentristas do universo.
04/06/2011 ás 5:26 pm |
Mudou-se da Tijuca? Perdeu 50% do seu charme. Flamengo é legal, mas não é o centro do universo rs